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Desenvolvimento Infantil

A criança que apaga e refaz tudo: capricho, insegurança ou perfeccionismo?

Leitura Rápida: Principais Pontos do Artigo

  • Apagar e refazer faz parte da aprendizagem: o sinal de atenção aparece quando a revisão consome tempo excessivo, provoca sofrimento ou impede a conclusão.
  • Buscar qualidade é diferente de exigir o perfeito: a flexibilidade diante do erro é uma distinção central entre empenho e sofrimento.
  • Comportamento com múltiplas causas: pode estar relacionado ao medo de avaliação, baixa confiança, dificuldade de escrita, incompreensão do comando ou experiências repetidas de crítica.
  • Apoio de família e escola: ajudam mais quando tornam os critérios claros, valorizam o processo e ensinam a criança a revisar com limites e propósito.

A atividade parece simples: copiar duas frases, resolver algumas operações ou produzir um pequeno texto. A criança começa, observa o que fez, apaga e tenta novamente. Em poucos minutos, o papel já está marcado, a borracha se desfaz sobre a mesa e a tarefa que deveria avançar permanece quase no mesmo lugar. Quando alguém diz que está bom, ela não acredita. Quando é orientada a continuar, pode se irritar, chorar ou rasgar a folha.

À primeira vista, esse comportamento costuma receber duas interpretações opostas. Para alguns, a criança é muito caprichosa. Para outros, está fazendo manha ou tentando adiar a tarefa. As duas conclusões podem ser precipitadas. Apagar e refazer é apenas o comportamento visível; compreender sua função exige observar o que acontece antes, durante e depois dele. Como vimos no artigo sobre o que o comportamento da criança está tentando comunicar quando não é apenas pirraça, olhar para a função da atitude ajuda a superar conclusões precipitadas.

Revisar faz parte de aprender

Toda aprendizagem envolve tentativa, comparação e ajuste. Ao perceber que uma letra ficou pouco legível, que uma conta foi montada incorretamente ou que uma frase não expressou bem a ideia, a criança pode corrigir sua produção. Essa revisão é útil quando melhora o trabalho sem interromper o processo. Ela permite reconhecer o erro, escolher uma estratégia e seguir adiante.

O problema não está no desejo de fazer bem-feito. Ele aparece quando o critério se torna rígido e inalcançável, a dúvida permanece mesmo após a correção e o valor da criança parece depender do resultado. Nessa situação, o erro deixa de ser uma informação sobre a tarefa e passa a ser vivido como ameaça: “Se não ficar perfeito, vão pensar que não sou capaz”.

"O perfeccionismo é um fenômeno multidimensional: metas elevadas acompanhadas de flexibilidade estimulam a aprendizagem, mas quando associadas ao medo de falhar e à autocrítica rígida, alimentam a ansiedade escolar."

O perfeccionismo é um fenômeno multidimensional, e não um diagnóstico por si só. A literatura diferencia, de modo geral, o estabelecimento de padrões pessoais elevados das preocupações perfeccionistas, marcadas por medo intenso de falhar, autocrítica e receio da avaliação alheia. Em crianças, essa diferença é decisiva: metas altas podem estimular empenho quando acompanhadas de flexibilidade; quando combinadas à pressão externa e à avaliação negativa, tendem a se associar a maior ansiedade escolar.

Quando a revisão deixa de ser funcional

Nenhum sinal isolado confirma perfeccionismo. O que merece atenção é a repetição do padrão, sua intensidade e o prejuízo causado. Família e escola podem observar se a criança:

  • gasta um tempo desproporcional em detalhes pequenos e não consegue concluir a atividade;
  • apaga repetidamente mesmo quando a resposta está correta ou a escrita está legível;
  • pede confirmação a todo momento, mas não se tranquiliza com a resposta;
  • evita começar tarefas nas quais imagina que poderá errar;
  • reage a pequenas falhas com choro, irritação, vergonha ou abandono;
  • compara sua produção de forma rígida com a de colegas ou irmãos;
  • recusa-se a mostrar rascunhos e aceita apenas uma versão considerada perfeita;
  • apresenta desempenho muito melhor em situações sem avaliação do que diante de cobrança, tempo limitado ou exposição.

Também é necessário perguntar o que a tarefa exige. Uma criança pode apagar excessivamente porque ainda não automatizou o traçado das letras, sente desconforto grafomotor, não compreendeu o comando, tem dificuldade para organizar ideias ou percebe que sua produção não corresponde ao que pretendia escrever. É importante diferenciar a evitação perfeccionista das dificuldades de planejamento e iniciação; em nosso estudo sobre quando a criança sabe o que fazer mas não consegue começar, detalhamos como a dificuldade de organização executiva difere da esquiva por medo de falhar. Chamar tudo isso de perfeccionismo seria apenas trocar um rótulo por outro.

Por que errar pode se tornar tão ameaçador?

Algumas crianças são mais sensíveis à avaliação e demonstram forte autocobrança. Outras acumulam experiências de correção pública, comparação, resultados frustrantes ou dificuldades de aprendizagem que abalam sua confiança. Há ainda contextos em que o elogio se concentra quase exclusivamente na nota, na rapidez ou na aparência impecável da tarefa. A criança pode aprender, pouco a pouco, que ser aceita significa corresponder a um padrão.

Estudos com crianças indicam que a pressão percebida e a avaliação negativa se relacionam a irritabilidade, sentimentos de desvalor e outros sinais de sofrimento. Pesquisas também mostram associação entre expectativas e críticas parentais percebidas e formas de perfeccionismo, especialmente aquela em que o jovem acredita que os outros exigem perfeição. Isso não autoriza culpar a família: pais e responsáveis também vivem sob intensa pressão por desempenho escolar. O dado convida a revisar a qualidade das mensagens transmitidas.

Em jovens com dificuldades específicas de aprendizagem, a equação pode ser ainda mais delicada. Experiências repetidas de esforço com resultados aquém do esperado podem aumentar a vergonha e o medo de avaliação. Um estudo publicado em 2025 encontrou maior perfeccionismo socialmente prescrito entre participantes com dificuldades específicas de aprendizagem e associação dessa dimensão com ansiedade. A conclusão prática não é baixar todas as expectativas, mas construir exigências possíveis, apoio adequado e critérios transparentes.

Como família e escola podem ajudar

A resposta mais útil não é proibir a criança de apagar nem permitir que ela refaça indefinidamente. O objetivo é ensiná-la a revisar com propósito, tolerar a imperfeição possível e perceber que desempenho não define identidade.

  1. Defina o que realmente importa: Antes da atividade, apresente dois ou três critérios objetivos. Em uma produção textual, por exemplo: comunicar a ideia principal, organizar começo, meio e fim e revisar a pontuação. A caligrafia não precisa ocupar o centro de todas as tarefas.
  2. Separe rascunho e versão final: Explique que o rascunho é um espaço de pensamento e pode conter setas, cortes e palavras incompletas. Quando toda tentativa precisa nascer pronta, a criança passa a vigiar a forma antes mesmo de desenvolver a ideia.
  3. Estabeleça um limite para a revisão: Combine uma leitura para verificar o conteúdo e outra para corrigir um aspecto específico. Depois disso, a atividade é encerrada. O limite reduz o ciclo de dúvida sem desvalorizar o cuidado.
  4. Troque elogios genéricos por devolutivas descritivas: Em vez de dizer apenas “perfeito” ou “você é muito inteligente”, mostre o que funcionou: “Você percebeu que a conta não fechava, voltou à etapa anterior e encontrou o ponto do erro”.
  5. Modele uma relação saudável com o erro: Adultos podem verbalizar pequenas correções com naturalidade: “Escrevi a palavra errada; vou corrigir e continuar”. A criança precisa ver que competência inclui revisar, e não evitar qualquer falha.
  6. Aceite produções suficientemente boas: Proponha situações de baixo risco nas quais a criança entregue um trabalho adequado, embora não impecável. Depois, conversem sobre o que aconteceu: o erro previsto causou a consequência temida? O resultado cumpriu sua finalidade?
  7. Ofereça apoio para a dificuldade real: Se o excesso de correções nasce de problemas de escrita, leitura, cálculo, planejamento ou compreensão, apenas trabalhar a tolerância ao erro será insuficiente. A habilidade acadêmica subjacente também precisa ser ensinada.

Frases que mudam o clima da tarefa

A linguagem cotidiana pode ampliar a ameaça ou devolver segurança. Algumas substituições simples ajudam:

  • Em vez de “Você apagou de novo?”, usar “O que você está tentando melhorar desta vez?”;
  • Em vez de “Tem que ficar perfeito”, usar “Precisa cumprir os critérios que combinamos”;
  • Em vez de “Olha como seu colega fez”, usar “Vamos comparar esta versão com a sua tentativa anterior”;
  • Em vez de “Não foi nada”, usar “Eu percebi que errar incomodou você; vamos descobrir o próximo passo”;
  • Em vez de corrigir toda a folha, escolher um objetivo de revisão por vez.

O olhar psicopedagógico

Na avaliação psicopedagógica, interessa menos contar quantas vezes a borracha foi usada e mais compreender o funcionamento da criança diante da tarefa. É possível comparar produções espontâneas e avaliativas, observar o tempo de execução, a reação ao erro, a busca de confirmação, a compreensão dos comandos e o domínio das habilidades acadêmicas envolvidas.

Esse olhar também considera funções executivas, linguagem, aspectos grafomotores, histórico escolar e as formas de mediação oferecidas. Se a criança melhora quando recebe critérios claros, etapas menores ou um exemplo inicial, essa resposta traz informações valiosas. Como reforçamos no artigo Diagnóstico não é palpite, a articulação interdisciplinar ajuda a compreender o quadro sem transformar observações isoladas em rótulos precipitados. Quando o medo de falhar ultrapassa as tarefas escolares, provoca sofrimento persistente ou aparece junto a outros sinais emocionais, a avaliação especializada traz clareza para a intervenção.

Entre o cuidado e o medo

Uma criança que apaga e refaz tudo pode estar tentando produzir melhor, proteger-se da crítica, esconder uma dificuldade ou recuperar a sensação de controle. Por isso, a pergunta mais produtiva não é “por que ela não para de apagar?”, mas “o que ela acredita que acontecerá se deixar a tarefa como está?”.

Quando adultos ensinam critérios, oferecem mediação e tratam o erro como parte do pensamento, a criança não precisa escolher entre o descuido e a perfeição. Ela pode aprender algo mais maduro: fazer com atenção, revisar o necessário, aceitar limites e seguir adiante. A tarefa deixa de ser um julgamento sobre quem ela é e volta a ser aquilo que deveria ser - uma oportunidade de aprender.

Referências

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CENTRE FOR CLINICAL INTERVENTIONS. Perfectionism self-help resources. Government of Western Australia, 2019. Disponível em: https://www.cci.health.wa.gov.au/resources/looking-after-yourself/perfectionism